Os Sonaipsede, pequena tribo da “rica” etnia Oiluteg Sagrav, que se estende da Evon Ohluj ao alto do monte Avepati, a planície baixa do Agixib, caracteriza-se por uma série de peculiaridades, tais quais rituais, práticas mágicas e estrutura moral idiossincráticas.

Conforme reza uma das lendas passadas de geração para geração, a fundação da tribo, exemplar Teocracia de Legagis, na inóspita região da Ahcor ocorreu pelo místico (cujo papel e figura são análogos ao Faraó egípcio) Yra Odlawso, devido a uma iluminação divina soprada ao seu ouvido pelo deus Otierid.

Estamentalmente, mesmo não sendo uma sociedade estratificadora, economicamente falando, há três castas, muito próximas às da sociedade Hindu, a dos Sonula, ou os sem luz, que “financiam”, os Serosseforp, ou os que possuem a luz, similares aos sacerdotes, e os Sodagerpme, ou os com quem não se deve conversar, parecidos com os “intocáveis” indianos.

Ainda que não haja nada formalmente escrito sobre a mitologia, esta não se finda no breve conto do gênese. Passadas de boca em boca entre os Sonula no Roderroc (cômodo comum para interação breve) por meio de rodas de contos ou então em um grande mural, denominado Koobecaf, de rascunhos quase rupestres, a mitologia se incrusta na imaginação severamente limitada e no senso comum destes humanos. Dentre estes mitos, marcados, entre outros, pelo maniqueísmo vulgar e por uma moralidade pautado em um conceito moderno – e aqui portanto notamos que é uma comunidade aparentemente desenvolvida – : o “eu”, destacam-se dois elementos que incorporam o mal: Irtimid e Acerac, ambos da classe dos Serosseforp.

Sem nos distanciarmos dos símbolos desta cultura, encontramo-nos com o corpo e seus significados. Assim como na cultura Sonacirema, explanada pelo professor Horace Miner na década de 70 – em “O Ritual do Corpo dos Sonacirema” In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) You And The Others, Cambridge University Press – possuem os Sonaipsede, com incrível semelhança, os mesmos processos ritualísticos ao nascer do Sol e em seu crepúsculo; o corpo –principalmente a idéia de sua doença e impotência– é para os Sonaipsede gerador de um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo de fascinação; e, logo, basilar para as relações da tribo.

As vestimentas surgem, nesta sociedade estamental, como forma de “desigualizar” o corpo quando comparado com outra casta e aproximar os de mesmo patamar. Ambas as três classes possuem características próprias. Todavia, neste estudo endereçado à consciência dos alunos da Edesp, preferi focar no conjunto médio.

A sexualidade, por sua vez, ainda em um corte sobre os Sonula, também se encontra neste padrão de poder e censura; considerada algo tão amedrontador e proibido que apenas duas vezes ao ano, uma ao primeiro equinócio do calendário ocidental e outra um mês e meio após o solstício de inverno, é permitida uma interação mais próxima entre ambos os sexos, em um ritual semelhante ao bacanal, regado a destilados de trigo e cevada ecantigas entonadas por um mestre de cerimônia; envolve não apenas a específica comunidade, mas também a toda a etnia Oiluteg Sagrav. Fora esses eventos, o acasalamento dificilmente ocorre entre membros iguais – aparentemente um Tabu –, os quais buscam seus parceiros no alémAgixib.

Por fim, falamos do poder entre os Sonula. Estes marcam seus panos com animais, como o albatroz, o alce, o jacaré, o cavalo e a águia (todos não oriundos da fauna local), em tentativa de criar uma escala de poder. A crença fundamental subjacente a todos os signos compartilhados entre “os sem luz” parece ser a de que um pode ser superior ao outro pelo poder e/ou pela luz. Isto se deve a dois fatores: serem os “financiadores”, o que impede que qualquer um o seja, tanto pelos custos quanto pela seleção para se tornar um Sonula, e o ambiente fomentado por uma eterna disputa para ser “o escolhido”, considerado pelos que tem luz como “o melhor”.

Caros leitores, findo aqui meu breve relato sobre essa tribo.

Entretanto, inquieto-me com interrogações que despontam ao comparar nossas práticas sociais com a dos Sonaipsede. Edespianos possuímos as mesmas práticas, mas não entendemos a verdade simplesmente pelo nosso preconceito e por despreparo mental em analisar os símbolos sob outros pontos de vista que não o do nosso grande ego.

“Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização”
Malinowski

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